O potencial da web 2.0 de mudar o mundo.

Reproduzo abaixo alguns trechos de uma brilhante reflexão de Antonio Martins para a Le Monde Diplomatique, chamada Muito Além de Gutemberg.

O Artigo fala sobre como os sites colaborativos, a blogosfera e as redes sociais na internet têm um enorme potencial para transformação o mundo, ao democratizarem o diálogo e a produção de conteúdo e de discursos e narrativas próprias da sociedade.

Uma utopia: viver de blog sem ser caça-paraquedista.

O autor propõe que, a partir de uma política que democratize os gastos do governo com mídia, no mínimo igualando aquilo (bilhões) que ele gasta com as grandes corporações com o que investe na mídia independente, produtores de cultura - como blogueiros ou músicos - poderiam viver de seu trabalho sem precisar negociar com o mercado. Desta maneira, por exemplo um blogueiro poderia viver do seu blog sem precisar ser um caça-paraquedistas, e escrever para seus leitores em vez de precisar escrever para o google.

Abre aspas:

“A convergência digital, a blogosfera e a comunicação compartilhada não ameaçam apenas a oligarquia da mídia corporativa. Também requerem um novo projeto para democratizar o jornalismo, e outros mecanismos para remunerar os produtores culturais.

Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas, mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim da passividade do receptor, direito à intercomunicação.

Essas mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social, econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição – é possível e necessária. […]

Como remunerar o trabalho do artista?

Se queremos que as obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se, habitar, viajar, equipar-se – em suma, satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos.[…]

No entanto, dois fatores combinados têm servido como uma contra-tendência formidável, que questiona a própria idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira é tecnológica: a internet começou, a vários anos, a erodir a receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.

Já não somos o que somos, mas o que compramos. O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas. Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet, bens culturais.

O fim do oligopólio das narrativas e discursos

É precisamente nesse contexto que surgem o direito à intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia — mais especialmente à busca de um mundo organizado segundo uma nova lógica social —, está se esfacelando um dos grandes instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das narrativas e discursos.

Como novos nós, sites colaborativos põem ordem no caos multifônico.

A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico. O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de uma nova forma de incomunicação e alienação.

Para evitar o risco, é importante criar outros nós na grande rede, certos lugares onde os produtores de símbolos se encontram, se reconhecem e estabelecem trocas. Isso não se faz de forma piramidal, nem com base em relações mercantis, nem sob a batuta de um editor todo-poderoso – mas a partir de recortes e pontos de vista compartilhados por uma comunidade.

No Brasil, um exemplo desbravador é o site de jornalismo cultural Overmundo. Centenas de leitores, muitos dos quais mantêm seus próprios blogs, ou produzem vídeo ou áudio – ou seja, já são produtores de conteúdo cultural – sentem-se atraídos para contribuir também para o Overmundo. Por que surgiu um nó, onde é possível estabelecer diálogos mais amplos.

Produzir comunicação, cultura ou arte não deve ser algo que dependa de remuneração

O segundo grande desafio é o da remuneração e sobrevivência dos novos produtores de símbolos. De certa maneira, a liberdade de conhecimento e de produção cultural é profundamente utópica, no melhor sentido do termo: o de antecipar um futuro possível. Ela aponta para a possibilidade da desmercantilização mais radical: a do próprio trabalho humano.

Produzir comunicação, cultura ou arte não deve ser algo que dependa de remuneração, mas um prazer e algo inerente à própria condição humana. Outras atividades, cada vez mais numerosas, deveriam ter o mesmo status: cuidar da natureza, educar as crianças, mostrar nossa cidade a visitantes que não a conhecem.

No caso de muitas outras atividades, o desenvolvimento da tecnologia poderia ser visto como um alívio, não como um drama. […] A condição é nos dispormos a imaginar a ultrapassagem da sociedade-mercadoria e do trabalho-mercadoria. Uma decisão-chave é reconhecer que, na época em que vivemos, a garantia de uma vida digna não pode mais estar associada a um emprego remunerado.

Isso exige, ao mesmo tempo, imaginar e testar desde agora novas relações. Se o trabalho necessário para produzir Overmundo é remunerado graças ao apoio de uma empresa pública, mediante patrocínio, devemos ter a ousadia de debater com a sociedade que se trata de uma relação muito mais avançada que vender o conteúdo do site aos que podem pagá-lo.

Produtores de conteúdo mantidos pelo estado.

Os caminhos para incentivar essa mudança são diversos – e sempre desconcentradores. Ao contrário do que ocorre na comunicação de massas, é possível produzir grandes saltos com pouquíssimos recursos. E, nesse caso, cada passo pode ser replicado em todo o país, gerando também efeitos sociais transformadores.

Seria possível, por exemplo, multiplicar o número de produtores de conteúdo oferecendo bolsas àqueles cuja ação é reconhecida por suas comunidades – territoriais ou virtuais – como promotora de formação e informação. Isso incluiria blogueiros, produtores de vídeos, músicos que produzem de forma compartilhada, fotógrafos. Os beneficiados pela bolsa teriam como responsabilidade aprender continuamente novas técnicas, e transmiti-las na comunidade.

É hora de assumir os compromissos

Os movimentos de grandes mudanças são sempre instantes de dor e delícia. Nas sociedades pós-modernas, as sociedades do conhecimento, é justamente no território da criação coletiva e circulação do conhecimento que estão se multiplicando os sinais de uma nova lógica social possível. É hora de fazer um pacto simultâneo com a vida e a utopia. É hora de assumir os compromissos de refletir permanentemente sobre a possibilidade dessa lógica, e de agir para torná-la real.”

Leia aqui o artigo completo.

Tropa de Elite e a luta pela cultura livre

Depois da entrevista do Mano Brown ao programa Roda Viva, resolvi ouvir toda a discografia dos Racionais. Coloquei tudo no iPod e fiquei mais de uma semana, só ouvindo o retrato deles da periferia paulistana.

A violência dos morros.

tropa_de_elite.jpgJá tendo ouvido tudo mais de uma vez, fui ver Tropa de Elite no cinema. Pra mim foi como ver, aquilo que passei uma semana ouvindo.

O filme é muito mais violento do que eu suporto. É, de longe, o filme mais violento que eu já vi. Filmes de terror, como Jogos Mortais ou O Albergue, não me afetam, porque sei que são ficção.

Mas Tropa de Elite retrata algo muito mais próximo da realidade da periferia dos grandes centros urbanos, como disse o Chico Buarque: a periferia da periferia da periferia.

Um soco na cara.

Eu cheguei a ficar literalmente enjoado, não sei se por causa da violência,
da câmera chacoalhando, ou do gnocchi com muito queijo que comi no Spoleto. Diferentemente de Cidade de Deus, o filme não é bonito. É feio. Não tem poesia. É um soco na cara da gente.

Ao ver a ação do bope, eu percebi que sérá muito mais difícil e levará muito mais tempo para mudar certas coisas no Brasil do que eu jamais imaginaria.

Internet ajudou o filme a ser um sucesso.

Veja o que Michel Lent diz sobre isso no webinsider:

Levando em consideração que a bilheteria do cinema é parte impulsionada pelas campanhas de marketing, mas principalmente alavancada pelo boca-a-boca, Tropa de Elite já contaria neste momento com milhões de “agentes” de marketing.

Quem viu a versão pirata diz que o filme é muito bom; boa parte, inclusive, quer ver novamente no cinema. Se metade dos três milhões de espectadores resolver ir ao cinema de novo e convencer pelo menos mais duas pessoas, o filme já faria perto dos cinco milhões de espectadores.

“Pirataria” e a luta pela cultura livre

A questão sobre a legalidade de se baixar filmes e música na internet ainda não é absolutamente clara. Não há consenso absoluto se, no Brasil, é ilegal fazer isso. Mas há quem lute para que não seja, para que a informação não possa mais ser controlada como propriedade privada em nenhum lugar e para que a internet não seja controlada por nenhum governo.

Eu me recuso a chamar quem baixa arquivos na internet de pirata. Concordo com John Perry Barlow, que sintetiza de maneira clara a posição da luta pela cultura livre:

Piratas são pessoas malvadas que atacam embarcações no alto mar, matam todos a bordo e roubam tudo o que tiver valor. Não são pessoas que encorajam outros a ouvir as mesmas músicas de que eles gostam. Além disso, não vejo como alguma coisa possa ser roubada se ainda a tenho. Propriedade é algo que pode ser tirado de alguém.

Se não estará provado, pelo menos haverá mais um caso no qual a distribuição livre da informação mais ajudou a gerar receita do que atrapalhou.

Números do primeiro fim de semana: 180 mil só no Rio e em São Paulo

O filme teve um incrível sucesso o primeiro fim de semana. O longa levou aos cinemas 180 mil espectadores no seu primeiro fim de semana. Foram 140 cópias exibidas em 171 salas, o que dá uma média de 1.052 espectadores por sala. 48% maior, por exemplo, que a “A Grande Família”, o filme brasileiro mais visto em 2007.

Já, se comparado a “Carandiru” – o nacional que teve a melhor a abertura desde a retomada –, o Tropa de Elite ficou 38% abaixo. Em relação a “Cidade de Deus” foi 90% melhor. E ainda, comparado a “Dois Filhos de Francisco” - o filme brasileiro que alcançou o maior número de espectadores nos últimos anos –  teve um desempenho 46% acima.

(fonte: Banco de dados do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do município do Rio de Janeiro. Via Chico Neto no Radinho)

Haverá uma mudança de atitude?

Aos poucos o próprio mercado está percebendo que na internet nao adianta, e não vale a pena, tentar controlar a informação e mantê-la como propriedade privada. Jornais como o NY Times recentemente liberaram seu conteúdo, que antes era pago. Lojas de música como a nova da Amazon estão vendendo arquivos para download sem DRM.

Será que vai demorar até a indústria cinematográfica entender como funciona a internet?

Sem DRM, Amazon MP3 concorre com iTunes

amazon_mp3.jpgEm combate direto ao domínio da Apple nas vendas de música digital, Amazon lançou sua própria loja de MP3. O diferencial é que os arquivos não têm DRM.

Falamos ontem sobre como a Apple, para ter controle total sobre seus produtos acaba tendo uma postura mais fechada do que deveria. Isso fica bem claro quando lembramos que as músicas vendidas através da loja iTunes são “protegidos” com DRM.

Como assim, DRM?

DRM (digital rights management, ou Gestão de direitos digitais), é uma tecnologia para controlar uma cópia de uma obra autoral. Usando esta tecnologia pode-se, por exemplo, restringir o número de vezes em que um arquivo pode ser aberto, a duração da validade desse arquivo ou os aparelhos que podem abri-lo.

Amazon MP3

As músicas compradas na nova loja da Amazon vêm sem DRM. Isso significa que essas músicas podem ser tocadas em qualquer lugar, sem nenhum limite. A loja já nasce com mais de 2 milhões de músicas para serem baixadas por pouco menos de 1 dólar.

Grandes gravadoras.

Segundo o Wired além de milhares de selos independentes, duas das maiores produtoras de música, Universal Music e EMI, vão vender suas músicas no novo serviço da Amazon. Elas representam a metade das quatro maiores gravadoras do mundo. A tendência é o resto do mercado acompanhar a mudança.

itunes_drm.jpgEstranho, mas é graças ao iTunes

Por mais estranho que pareça, é à Apple que devemos agradecer pela nova loja da Amazon ser sem DRM. Acontece que o iPod e o iPhone só tocam dois tipos de arquivo: o protegido pela tecnologia DRM proprietária da Apple, chamada FairPlay, ou arquivos totalmente sem proteção.

Assim, a escolha das gravadoras (e de quem quiser competir com a iTunes) é: lançar seu próprio DRM e não funcionar em nenhum iPod ou deixar essa história de DRM prá lá. A escolha parece óbvia.

Mas de que serve o DRM?

Para cada tecnologia de DRM há um crack correspondente. A comunidade hacker e os ativistas pela cultura livre sempre dão um jeito de liberar o material do DRM. Assim, não há qualquer prova de que o DRM seja eficaz contra a chamada “pirataria”.

O que você acha disso?

O controle da Apple sobre o mercado de tocadores de música digital acabou sendo tão grande que forçou grandes gravadoras a venderem música sem DRM. Mas empresas têm direito de usar DRM? E será que a estratégia da Amazon dará certo contra a hegemonia do iTunes?